Terias?
Este é um texto diferente dos demais neste espaço. É um texto introspetivo e que nos remete para o tema do usufruto da vida.
Todos devíamos integrar nas nossas rotinas a visita a um cemitério. Uma vez de vez em quando.
A cada dia de ira, uns passinhos entre túmulos; a cada gesto de ódio, uma observação atenta das lápides: datas, nomes, últimas palavras, quase sempre de louvor e carinho. A cada pensamento de vingança, escutar no cemitério os silenciosos lamentos de quem viveu.
Terá efetivamente vivido?
Fecha os olhos e imagina-te a observar quem olha o teu corpo inerte e frio. O odor das flores, outrora feitas jardim, é agora inebriante e enjoativo. Cheira a morte. A tua roupa é de festa, bonita, bem engomada. Talvez até estejas perfumado. Mas não se nota, porque as flores – amarelas, rosas, azuis e brancas – são ali as rainhas.
Pessoas que nem lembras bem ou nem conheces, olham-te com o temor do desconhecido. Outras, que desejas abraçar, insistem em não ouvir os teus gritos, que ecoam mudos. Encostas o teu rosto ao delas, mas insistem em não reagir, não sentir. Até as lágrimas que tentas limpar, continuam teimosamente a rolar. Apercebes-te que esta é a tua última festa. A música acompanha os soluços dos que se despedem. Estranhamente ninguém dança. Mas a orquestra, vestida de negro, toca-lhes a alma. Não os embala carinhosamente. Não os convida à gargalhada dos habituais festejos. Não. Desta vez, a música que se ouve na tua festa, é a música que se crava no peito e leva à emersão da saudade, do arrependimento, do piscar de olhos que é passado. A oportunidade, que parecia imensa - tantos dias temos! – fechou para sempre a pesada porta de ferro.
O que lamentas não ter dito? O que terias moldado com outro barro? Que caminhos terias trilhado se soubesses que, afinal, os dias não eram assim tantos? Terias ido conhecer outro mar? Terias sido gentil quando chispas de ódio te atingiram? Terias olhado os outros com a lente da alma? Terias abraçado mais? Terias congelado na memória momentos singelos como sentir a erva fresca numa sombra de Verão?
Terias cuidado do teu corpo como se de um templo se tratasse? Porque albergava o que eras… agora és luz que se vai desvanecendo... até que a festa termine. Terias agradecido cada sol e cada pingo de chuva? Terias apreciado as rotinas como os intervalos entre momentos de ouro e êxtase? Como as reticências que antecipam um ponto de exclamação?
Terias aguçado a curiosidade? Terias protegido a tua casa que é também a casa dos demais… e que continuamente desvalorizamos? Terias alimentado o teu cérebro com palavras, sons, paisagens, diálogos, cores, pinturas, teatralizações? Como uma arca do tesouro, abri-lo frequentemente e ir ali guardando mais um colar de pérolas, mais um diamante, mais uma concha rosa apanhada à beira-mar num final de tarde alaranjado? E, de quando em vez, abrir essa arca do tesouro e mostrá-la ao mundo?!
Terias parado o trabalho que nunca podia esperar, para observar o pardalito que decidiu visitar-te à janela?
Terias cultivado a paciência? Terias permitido alguns salpicos de água no teu fogo?... Talvez pudesses ter sido – para os que agora choram - o sol morno numa fria manhã de Inverno.
Terias apaziguado o teu coração com a autocompaixão? Terias dado colo aos teus temores, às tuas fragilidades, às tuas incapacidades?
Terias adormecido o ego quando o mundo precisasse mais de amor e de perdão do que de afirmação, protagonismo e vencedores? Terias estendido a mão quando te mostrassem as costas? Terias caminhado na direção de quem fugia de ti?
Terias tido tempo para escutar? Ou limitar-te-ias a ouvir, tecendo pensamentos, listando tarefas e afazeres, que te impediam de apreender as palavras que ecoavam, e que rapidamente esquecias? Continuarias a preferir ouvir a tua voz em detrimento da dos demais?
Terias usados os teus privilégios para tocar vidas que conheceram mais tristezas que alegrias?
Terias saboreado o café e as amoras? Terias deixado o chocolate derreter-se na boca? Terias inspirado o odor da terra molhada depois de uma noite de chuva? Terias mergulhado no mar, sem dia ou hora marcada?
Acima de tudo, terias acendido vidas?
Se soubesses que os dias seriam, afinal, poucos; se alguém te segredasse o tempo que te restava, que homem, que mulher, terias sido? Que glória te terias oferecido na vida que te foi concedida?
Eu venho soprar-te ao ouvido: falta pouco. A pesada porta de ferro fecha-se um pouco mais todos os minutos que passam. Que festa vais preparar para a tua vida? Antes que toque a última nota da orquestra.