Doenças autoimunes e fibromialgia: o que têm em comum e porque afetam mais as mulheres
As doenças autoimunes e a fibromialgia são condições crónicas que, à primeira vista, parecem muito diferentes. Enquanto nas autoimunes o sistema imunitário ataca tecidos do próprio corpo, na fibromialgia a dor e a fadiga resultam de uma alteração na forma como o sistema nervoso central processa os sinais de dor.
Mas ambas partilham algo importante: são condições que afetam desproporcionalmente as mulheres e que têm em comum sintomas debilitantes, impacto emocional e subdiagnóstico.
O que são as doenças autoimunes?
O sistema imunitário é a defesa natural do organismo contra vírus, bactérias e toxinas. Numa doença autoimune, este sistema entra em desequilíbrio e passa a atacar células e tecidos saudáveis, causando inflamação crónica.
Exemplos frequentes incluem:
Tiroidite de Hashimoto (tiroide)
Artrite reumatoide (articulações)
Psoríase (pele)
Doença celíaca (intestino)
Esclerose múltipla (sistema nervoso)
Segundo Cooper & Stroehla (American Journal of Medicine, 2003), existem mais de 80 doenças autoimunes reconhecidas, que afetam até 10% da população.
O que é a fibromialgia?
A fibromialgia é uma síndrome de dor crónica generalizada, acompanhada por fadiga, sono não reparador, problemas de concentração (“fibro fog”) e hipersensibilidade a estímulos.
Embora não seja classificada como uma doença autoimune, há pontos de contacto:
A fibromialgia está associada a processos inflamatórios de baixo grau.
Muitos pacientes apresentam doenças autoimunes concomitantes, como
artrite reumatoide ou lúpus.
O stress físico e emocional é um fator desencadeante comum às duas
condições.
O que têm em comum?
Predomínio em mulheres
Entre 75–80% dos doentes com doenças autoimunes são mulheres. Na fibromialgia, a proporção é semelhante: cerca de 80–90% dos diagnósticos são em mulheres.Inflamação e dor crónica
Embora os mecanismos sejam diferentes, ambas envolvem fenómenos inflamatórios e hipersensibilidade do sistema nervoso.Impacto psicológico
Ansiedade, depressão e distúrbios do sono são comuns e podem agravar sintomas em ambas as condições.Subdiagnóstico
Tanto nas autoimunes como na fibromialgia, os sintomas iniciais podem ser vagos — fadiga, dores difusas, névoa mental — levando a anos de espera até um diagnóstico correto.
Porque afetam mais as mulheres?
A ciência ainda não tem todas as respostas, mas várias hipóteses têm sido investigadas:
Influência hormonal
O estrogénio parece modular o sistema imunitário, podendo aumentar a suscetibilidade a autoimunidade.
Alterações hormonais (puberdade, gravidez, menopausa) estão associadas a agravamento de sintomas.Diferenças genéticas
Certos genes ligados ao cromossoma X parecem aumentar o risco de autoimunidade— e as mulheres têm dois cromossomas X.Resposta ao stress
Mulheres apresentam maior reatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), o que pode contribuir para maior vulnerabilidade a condições relacionadas com stress crónico.Fatores sociais e culturais
As mulheres enfrentam frequentemente maior carga de cuidados familiares e
profissionais, associada a níveis mais altos de stress. Além disso, sintomas femininos
são muitas vezes desvalorizados clinicamente, levando a atrasos no diagnóstico.
Estratégias de apoio integrativo
Embora não haja cura definitiva, várias abordagens podem aliviar sintomas e melhorar a qualidade de vida:
Alimentação anti-inflamatória
Dieta rica em frutas, legumes, peixes gordos, sementes e frutos secos.
Redução de ultraprocessados, açúcares e álcool.
Fitoterapia
Curcuma e gengibre → ação anti-inflamatória.
Ashwagandha → adaptogénico para stress.
Valeriana e camomila → apoio ao sono.
Nutrientes-chave
Magnésio → relaxamento muscular e nervoso.
Vitamina D → equilíbrio imunológico.
Omega-3 → anti-inflamatório.
Gestão emocional
Meditação e mindfulness → reduzem perceção da dor.
Psicoterapia cognitivo-comportamental → eficácia demonstrada em fibromialgia.
As doenças autoimunes e a fibromialgia são condições distintas, mas com muitos pontos em comum: predomínio em mulheres, ligação ao stress e inflamação, impacto psicológico e subdiagnóstico.
Mais do que nunca, é essencial olhar para estas doenças com uma abordagem holística: tratar não só os sintomas físicos, mas também as emoções, o estilo de vida e o equilíbrio do corpo como um todo.
Referências: Cooper GS, Stroehla BC. The epidemiology of autoimmune diseases. Am J Med. 2003 | Bazzichi L, et al. Cytokine patterns in fibromyalgia and their correlation with clinical features. Clin Exp Rheumatol. 2007 | Fairweather D, Rose NR. Women and autoimmune diseases. Nat Rev Immunol. 2004 | Queiroz LP. Worldwide epidemiology of fibromyalgia. Clinics. 2013 | Cutolo M, et al. Sex hormones, immunity and autoimmune diseases. Autoimmun Rev. 2012| Bale TL, Epperson CN. Sex differences and stress across the lifespan. Nat Neurosci. 2015 | Grossman P, et al. Mindfulness-based stress reduction and health benefits. J Psychosom Res. 2007 | Bernardy K, et al. Cognitive behavioural therapies for fibromyalgia. Arthritis Res Ther. 2010.