A História do Leite de Vaca: Publicidade, Lobbies e Ciência (Parte 1)
Vou falar sobre o leite de vaca. Como este artigo ficou enorme, vou dividi-lo em 2 partes. Esta é a parte 1.
Não me limitarei a apresentar conclusões de vários estudos científicos; quero que conheças a história por detrás da convicção comum de que o leite é necessário à alimentação diária dos seres humanos. Quero que conheças as campanhas publicitárias que geraram esta ideia e que possas refletir por ti mesmo. Parto de uma pergunta que, mesmo sem qualquer outra informação, deveria deixar-nos reflexivos acerca do tema: se o leite de vaca tem como objetivo alimentar um vitelo e fazê-lo crescer até se tornar numa vaca ou boi, poderá ter os nutrientes adequados para alimentar um bebé, criança ou adulto, de outra espécie e com um porte significativamente menor?
Eu adorava o leite das vaquinhas
Eu tive a sorte de ter sido um bebé amamentado. Após essa fase, comecei a beber leite de vaca. Havia uma vacaria na vila onde vivia e íamos cedinho, com as garrafas leiteiras, buscar o leite das vaquinhas. Segundo me contam, sentar-me a beber um copinho de leite era um dos meus prazeres do dia. Quando a vacaria fechou portas, tentaram que passasse a beber leite dos pacotes, à venda nas mercearias na altura. Nunca me habituei pelo que, desde cedo, o leite deixou de fazer parte da minha alimentação.
Eram os anos 80 e a adopção do hábito de se dar leite de vaca integral às crianças, inclusive abaixo de 1 ano, era prática comum e encorajada pela OMS.
Nos anos 90, assistimos a várias campanhas publicitárias que enfatizavam a importância do leite no dia-a-dia alimentar ou que relacionavam o cálcio com o leite. No primeiro caso, tivemos a famosa campanha “Got Milk?”, que começou em 1993, na Califórnia; para correlação entre o leite e o cálcio, destacamos a campanha do bigode ("Milk Mustache"), lançada em 1995. Por todo o mundo houve iniciativas publicitárias semelhantes e o leite transformou-se num alimento inquestionável para a saúde, nomeadamente óssea e dentária.
As pirâmides dos alimentos
A pirâmide dos alimentos dos anos 90 colocava os laticínios num local relevante: em 1992, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (o DAEUA), montou o primeiro esquema em forma de pirâmide. Nele, incentivava-se a ingestão de carboidratos — como massas, pães e cereais — em vez de gorduras.
Essa pirâmide, dividida em oito grupos que se localizavam entre quatro andares, indicava como principal grupo alimentar a ser consumido os carboidratos, seguido das frutas e hortaliças e depois, os laticínios, juntamente com carnes e leguminosas. No topo da pirâmide, os alimentos que deveriam ser raramente ingeridos: doces e gorduras e alimentos com alto índice de proteínas.
Sobre essa pirâmide, chegou-se depois à conclusão de que poderia ser prejudicial à saúde, nomeadamente por declarar a gordura totalmente desaconselhada.
A pirâmide da dieta mediterrânea - apresentada pela primeira vez num congresso científico de 1993, em Boston – foi criada pela organização sem fins lucrativos Oldways em parceria com a Escola de Saúde Pública de Harvard e a Organização Mundial de Saúde. Os laticínios continuaram a aparecer, mas sugere-se sobretudo iogurtes e queijos magros.
A pirâmide da administração Trump
Muitas outras pirâmides ou rodas dos alimentos têm sido apresentadas, mas passo diretamente à última, apresentada em Fevereiro deste ano, nos EUA, sob a administração Trump. Verificamos nesta pirâmide que o leite gordo - ‘whole milk’ – aparece com grande destaque no cimo, sustentando o movimento ‘Make whole milk great again.’ Esse movimento tem-se feito acompanhar de ações de propaganda com crianças, com a promessa de que o leite gordo voltará às escolas. Ora, numa sociedade onde a obesidade infantil é elevadíssima, o jornal Público fez as contas:
"Beber diariamente dois copos (500ml) de leite gordo em vez de leite magro é responsável por mais 17,5g de gordura (157kcal) por dia e 525g (4725kcal) por mês, o que mantendo toda a rotina alimentar normal, seria responsável pelo aumento de praticamente 1kg de massa gorda em apenas um mês."
Vídeo da campanha ‘Make Whole Milk Great Again’
Foi também divulgado um vídeo de Robert F. Kennedy Jr., aparentemente gerado por IA, no qual dá um gole e é transportado de repente para uma discoteca, com um bigode de leite. RFK Jr. foi nomeado e confirmado para o cargo de Secretário do Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS) da administração de Donald Trump.
Vídeo da campanha ‘Male Whole Milk Great Again’
Não vou focar as muitas outras insanidades apresentadas nessa nova pirâmide e nas respectivas propagandas, mas quero destacar que, dos nove revisores científicos destas guidelines nutricionais da administração Trump, sete possuem ligações à indústria, nomeadamente, National Cattlemen’s Beef Association, Texas Beef Council, General Mills, National Dairy Council, e National Pork Board.
Penso que as primeiras mensagens que te quero passar ficam claras:
1) Existe evolução científica que – felizmente – permite que se corrijam ideias veiculadas no passado; à época acreditava-se ser o melhor e mais recomendável. Mas, após estudos com evidências científicas, há que esclarecer as populações.
2) As recomendações nutricionais com origem em governos e instituições – paralelamente às campanhas que promovem – não são isentas, já que respondem a lobbies com interesses financeiros. Devia ser assim? Não, claro que não. Deveríamos acreditar que os Governos sugerem o que é melhor para as pessoas, tendo por base apenas critérios científicos. Mas, infelizmente, não é assim que acontece, pelo que compete a cada um de nós procurar a informação válida e isenta junto dos melhores profissionais de saúde.
Na segunda parte deste artigo vou então debruçar-me sobre as consequências do leite de vaca na alimentação humana. Sem fundamentalismos, vamos analisar os resultados de centenas de estudos que têm sido feitos e que não possuem, por detrás, indústrias com interesses económicos. Fica atento. Em breve, aqui no meu blogue.