Uma Análise Crítica sobre o Consumo de Leite de Vaca (Parte 2)

Desconstruindo mitos nutricionais e compreendendo o impacto do leite de origem animal na saúde humana.

Durante décadas, o leite de vaca foi promovido como um pilar fundamental da alimentação saudável, associado desde a infância à ideia de ossos e dentes fortes e crescimento vigoroso. Houve um grande envolvimento de organismos públicos, incentivados por lobbies da indústria dos lacticínios, que levaram a que se tornasse numa verdade universal - no mundo ocidental - o facto de o leite ser essencial para a saúde.

Neste artigo, falámos sobre esse tema.

No entanto, uma análise mais aprofundada da bioquímica humana, da ecologia intestinal e de diversos estudos epidemiológicos independentes revelam uma realidade consideravelmente mais complexa – e muitas vezes preocupante.

Afinal, as necessidades nutricionais e a fisiologia de um vitelo diferem drasticamente das de um ser humano, seja criança seja adulto.

Independentemente dos aspectos negativos do consumo de leite de vaca que irei elencar em seguida, não posso deixar de apresentar também os seus benefícios. Parece-me que o fundamentalismo traz discussão sem construção, traz cisão sem evolução e, por isso, não ajuda ninguém. Logo, em tantos e também neste tema, quero apresentar prós e contras, já que acredito que a melhor decisão é aquela que se toma quando na posse de informação completa e credível.

Que aspetos positivos tem o consumo do leite de vaca, de acordo com este estudo?

1.      Alimento completo: o leite de vaca é considerado um alimento completo, fornecendo proteínas de alta qualidade e micronutrientes essenciais, incluindo vitaminas e minerais.

2.      O leite de vaca tem sido associado a um efeito favorável na prevenção e no contexto de algumas doenças, nomeadamente:

  • Diabetes tipo 2

  • Doença de Alzheimer

  • Cancros colorretal, da bexiga e gástrico

É ainda apontado como diminuindo o risco de AVC (derrame cerebral) e de pressão arterial elevada.

Que aspectos negativos tem o consumo do leite de vaca, de acordo com várias fontes bibliográficas, abaixo indicadas?

1. O Problema da Proteína Láctea e a Digestão Humana

A sabedoria biológica subjacente ao nosso corpo determina que o bebé humano é capaz de assimilar perfeitamente as caseínas do leite materno (ou seja, as proteínas que integram o leite da mãe). Contudo, quando consumimos leite de outra espécie, alteramos as regras naturais. A proteína do leite animal passa para o intestino delgado digerida de forma parcial, devido ao facto de o próprio leite neutralizar os ácidos gástricos necessários para a sua desagregação. Este problema complica-se na idade adulta, uma vez que, com o passar do tempo, os níveis de renina gástrica - a enzima necessária para a ruptura das moléculas dessa proteína - diminuem consideravelmente. Mal digerida, poderá atravessar as paredes intestinais - especialmente se existir hiperpermeabilidade intestinal - e podem provocar o que o professor Seignalet denomina de «patologias de eliminação» (asma, bronquites, eczemas, rinites, afeções ORL, colites, etc.). O Dr. Gauvin, do Instituto de Medicina Meioambiental de Paris, relacionou diretamente as infeções de garganta, nariz e ouvidos com o consumo de lácteos.

2. O Mito do Cálcio e a Desmineralização Óssea

Existe um paradoxo fascinante no mundo ocidental: embora os países ocidentais sejam os maiores consumidores de lácteos e de cálcio, são exatamente aqueles onde se regista uma maior incidência de osteoporose, em contraste nítido com países orientais como a China, onde o consumo de leite animal é quase simbólico. Estudos epidemiológicos realizados na China e em Los Angeles indicam que o leite animal não só não calcifica, como provavelmente desmineraliza. Apontam-se dois fatores principais:

- Acidez Transitória: a ingestão de proteínas lácteas pode induzir o organismo a recorrer a sais básicos do osso para regular o seu pH sanguíneo.

- Desequilíbrio Mineral: a assimilação de cálcio é favorável quando existe um rácio de fósforo para magnésio de 2:1; mas os lácteos apresentam níveis excessivamente altos de fósforo e baixos de magnésio. O Dr. William Ellis afirmou que, após analisar mais de 25.000 análises de sangue, os níveis mais baixos de cálcio correspondiam a pessoas com o hábito de tomar três, quatro ou cinco copos de leite por dia.

3. O Problema da Lactose e da Manipulação Industrial

A lactose (o ‘açúcar’ do leite) é hidrolisada pela lactase, uma enzima que tende a desaparecer com o decorrer do tempo. Na idade adulta é muito frequente a insuficiência de lactase e, como consequência, a lactose não hidrolisada acumula-se no intestino grosso, provocando más fermentações e putrefações. Além disso, a lactose aumenta as reações alérgicas provocadas pelas caseínas e a assimilação de metais nocivos.

Adicionalmente, os processos industriais de pasteurização e aquecimento alteram profundamente o alimento.

A pasteurização destrói micro-organismos indesejáveis, mas também vitaminas e enzimas necessárias para a digestão da proteína láctea. O aquecimento UHT e prolongado desnaturaliza grande parte das proteínas (por exemplo, um aquecimento a 80ºC durante 30 minutos desnaturaliza 90% das proteínas).

Destaca-se também a Reação de Maillard. Trata-se de uma rede complexa de reações químicas que acontece quando proteínas e açúcares são submetidos a altas temperaturas, geralmente acima de 140°C. Ora, na ultra-pasteurização (UHT) a esterilização eleva a temperatura do leite entre 135°C e 150°C, durante 2 a 4 segundos. Isto permite que o leite seja conservado fora do frigorífico por vários meses enquanto fechado. Quais as consequências quando o leite de vaca é sujeito a esse procedimento?

- ocorre o bloqueio do aminoácido lisina (um dos componentes da proteína do leite), limitando a utilização digestiva dessa proteína;

- também a proteína beta-lactoglobulina - ausente do leite materno mas presente no leite de vaca e responsável por certos processos alérgicos nas crianças - apresenta máxima atividade alergénica nas primeiras etapas deste processo (reação de Maillard).

4. Gordura, Colesterol e o Sistema Endócrino

O leite e os seus derivados contêm uma gordura chamada ácido araquidónico. No nosso organismo, esta substância transforma-se em prostaglandinas PGE2, que funcionam como verdadeiros 'alarmes' que desencadeiam processos de inflamação e alergia no corpo.

Além disso, os lacticínios fornecem quantidades elevadas de colesterol. A bioquímica Olga Cuevas apontava uma impressionante comparação: 1 taça de leite gordo tem 34 mg de colesterol, enquanto uma fatia de bacon tem apenas 3 mg (não sendo esta comparação um incentivo ao consumo frequente de bacon!)

A relação entre o consumo de leite e os níveis de colesterol elevado em crianças tem levado muitos países a retirar os lácteos de tabelas de grupos de alimentos fundamentais ou a recomendar os desnatados — embora mesmo estes mantenham quantidades importantes de gordura e as problemáticas caseínas.

Outro aspeto crítico é a presença de hormonas no leite (hormonas pituitárias, esteroides, pancreáticas, tiroideias, sexuais, etc.), necessárias para o vitelo lactante mas capazes de produzir alterações sérias na nossa espécie, incluindo acne, alterações ginecológicas e cancros linfáticos. A hormona de crescimento IGF-I presente no leite pode estimular e descontrolar a degeneração celular na presença de tóxicos ambientais (como o fumo do tabaco, por exemplo).

5. Tóxicos, Pesticidas e Antibióticos

No leite de vaca podemos encontrar resíduos de pesticidas (como os organoclorados lipossolúveis, que persistem durante anos no tecido adiposo, e que chegam ao leite através da limpeza dos estábulos e locais de armazenamento ou alimentação / usos terapêuticos nos animais). Encontramos também antibióticos, como a penicilina (administrada para as mastites da vaca, podendo vir a gerar resistência aos antibióticos, o que trará complicações futuras no tratamento de infeções na criança) e proliferação de bacilos, hormonas e até glóbulos brancos, procedentes de infeções no animal.

6. Impacto Epidemiológico: Cancros e Linfomas

Estudos epidemiológicos de grande envergadura têm associado o consumo regular de leite a patologias graves:

Cancro da Próstata: O Instituto de Investigação Mario Negri (Milão, Itália) concluiu que o consumo habitual de leite (gordo ou desnatado) aumenta o risco de cancro da próstata (La-Vecchia et al., 1991).

Linfomas: Um estudo de 11 anos na Universidade de Bergen (Noruega) observou que quem consome dois ou mais copos de leite de vaca diariamente apresenta um risco 3,4 vezes maior de padecer de linfomas (Ursin et al., 1990), o que pode estar relacionado com a transmissão de vírus da leucemia bovina (Ferrer et al., 1981).

Cancro do Ovário: O Instituto Roswell Park (Nova Iorque) comprovou que mulheres que bebem mais de um copo de leite por dia têm um risco superior a três vezes de padecer de cancro do ovário (Mettlin & Piver, 1990).

Em resumo: antes de assumires uma postura totalmente contra ou totalmente a favor do leite de vaca, informa-te, analisa o teu caso (ou o caso das pessoas que te rodeiam) e decide tendo por base o conhecimento. O mundo já tem demasiados fundamentalismos: podes optar por reduzir o consumo, mantê-lo ou cortar totalmente com os lácteos. E a decisão certa será a que melhor se adequar à tua saúde. Sempre.

Referências Bibliográficas

Cuevas Fernández, Olga. El equilibrio a través de la alimentación. Autor-editor, León, 1999.

La-Vecchia, C. et al. Dairy products and the risk of prostatic cancer. Oncology, 48: 406-410, 1991.

Ursin, G. et al. Milk consumption and cancer incidence: A Norwegian prospective study. Br. J. Cancer, 61: 456-459, 1990.

Ferrer, J. F.; Kenyon, S. J.; Gupta, P. Milk of dairy cows frequently contains a leukemogenic virus. Science, 213: 1014, 1981.

Mettlin, C. j.; Piver, M. S. A case-control study of milk-drinking and ovarian cancer risk. Am. J. Epidemiol, 132: 871-876, 1990.

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