Minimalismo e saúde: menos coisas, menos stress?
Vivemos rodeados de estímulos. Objetos, informação, compromissos, notificações, ruído visual e sonoro. Num mundo onde “mais” é frequentemente associado a sucesso, conforto e segurança, raramente paramos para questionar se esse excesso não estará, na verdade, a sabotar a nossa saúde.
Se acompanhas o meu Instagram, terás visto que, há uns meses, fui fazer os Caminhos de Santiago de Compostela. De Tui a Santiago, em 5 dias. Para além de muitos pensamentos, ilações e conclusões que foram chegando a mim nesses dias, houve algo que experienciei e que me deu um enorme sentimento de liberdade: precisamos de tão pouco para viver. Na verdade, no que toca a bens materiais, apenas algumas roupas e produtos. E depois, precisamos comer, beber e ter onde pernoitar. E é isso. Sentir no íntimo a libertação de não precisar das tralhas que acumulamos foi algo transformador para mim.
Mas será que menos coisas pode mesmo significar menos stress?
A resposta, cada vez mais apoiada pela neurociência, psicologia e fisiologia do stress, é: sim.
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O nosso sistema nervoso foi desenhado para responder a ameaças pontuais — não a estímulos constantes.
Quando vivemos permanentemente expostos a excesso de informação, desorganização visual, ruído e solicitações contínuas, o cérebro interpreta esse cenário como uma ameaça difusa, mantendo o corpo num estado de alerta permanente.Este estado de ativação contínua do sistema nervoso simpático manifesta-se em:
ansiedade
fadiga persistente
dificuldade em desligar
tensão muscular
distúrbios do sono
Ou seja, mesmo que não estejamos conscientes disso, o excesso cria um terreno fisiológico favorável ao stress crónico.
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Estudos em neurociência mostram que ambientes desorganizados consomem recursos cognitivos.
O cérebro tenta processar tudo o que vê, mesmo que não estejamos conscientemente focados nesses estímulos.Isto traduz-se em:
maior dificuldade de concentração
irritabilidade
menor clareza mental
maior fadiga ao longo do dia
Não é apenas uma questão estética: a desorganização visual sobrecarrega o córtex pré-frontal, a área responsável pela tomada de decisões, foco e autorregulação emocional.
Ambientes mais simples libertam energia mental.
Vou dar-te um exemplo que observo todos os dias em mim. Eu trabalho a partir de casa. Então, antes de me sentar à secretária, aspiro os pelos da minha gata Carlota do sofá, coloco o Roomba a aspirar a casa, arrumo alguma loiça que esteja no escorredor, faço as camas, e só depois faço a minha infusão e me sento a trabalhar. Esta organização externa é fundamental para a minha organização mental.
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Minimalismo não é ter uma casa “bonita para o Instagram”.
É reduzir carga sensorial, diminuir decisões diárias desnecessárias e libertar o cérebro de estímulos supérfluos.Cada objeto, cada escolha, cada estímulo exige energia mental.
Quando reduzimos o excesso, reduzimos também a chamada decision fatigue — o cansaço gerado por demasiadas decisões ao longo do dia.Menos escolhas = menos fadiga mental = mais capacidade de regulação emocional.
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O excesso ambiental e mental alimenta a ativação crónica do eixo HPA (Hipotálamo–Hipófise–Suprarrenais), o principal sistema de resposta ao stress no organismo.
Quando este eixo permanece hiperativo, surgem alterações em:
cortisol
sono
digestão
imunidade
equilíbrio hormonal
Simplificar o ambiente e a vida quotidiana contribui diretamente para normalizar este eixo e devolver ao organismo uma sensação de segurança fisiológica.
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Na Naturopatia, a saúde constrói-se sobretudo no quotidiano.
Não apenas com suplementos ou terapias, mas com:menos estímulos
mais silêncio
mais presença
mais tempo para o corpo recuperar
Neste sentido, o minimalismo pode ser visto como uma verdadeira terapia ambiental, atuando como um regulador natural do sistema nervoso.
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Minimalismo não se aplica apenas aos objetos.
Também inclui:
reduzir compromissos desnecessários
aprender a dizer “não”
libertar relações drenantes
diminuir a sobrecarga emocional
O excesso emocional é tão desgastante quanto o excesso material — e frequentemente mais invisível.
Menos cargas emocionais = mais vitalidade.
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Quando há menos distração, tornamo-nos mais sensíveis aos sinais internos:
fome real
cansaço
necessidade de pausa
estados emocionais
O minimalismo favorece a reconexão com a inteligência corporal, permitindo decisões mais alinhadas com as reais necessidades do organismo.
Quais são então os benefícios reais para a saúde?
Ambientes mais simples e organizados estão associados a:
menor ansiedade
melhor qualidade de sono
maior foco
menos fadiga mental
maior adesão a hábitos saudáveis
Não porque sejam “perfeitos”, mas porque são funcionalmente mais favoráveis à regulação neuroemocional.
Como começar: pequenos passos com grande impacto
Não é preciso mudar tudo de uma vez.
Alguns gestos simples fazem uma enorme diferença:
Libertar superfícies visuais (mesa de trabalho, quarto, cozinha)
Reduzir notificações digitais
Criar zonas “sem estímulos” em casa
Estabelecer rituais simples (chá, leitura, respiração)
Fazer a pergunta-chave: “Isto serve a minha saúde ou rouba-me energia?”
Minimalismo como forma de autocuidado
Minimalismo não é privação.
É escolher conscientemente o que nutre — e libertar o que sobrecarrega.
Menos coisas.
Mais saúde.
Mais presença.
Deixo-te a sugestão de um documentário muito interessante acerca deste tema, que está na Netflix: ‘Minimalism: a documentary about the important things’.